quinta-feira

No Último Dia

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Eu sou daquelas pessoas que quando tem de pagar alguma coisa ao estado (nem merece a maiúscula que se impunha), espera pelo último dia do prazo, de preferência lá por volta das onze da noite, para fazer o pagamento.

É que já DOU 20% do meu trabalho para o erário público (sim, sim, um quinto de tudo o que faço - que isto de ser trabalhadora independente é muito lindo, muito lindo, mas tem muito que se lhe diga), pago Segurança Social (Segu... quê?), faço pagamentos por conta (e vá lá que este ano não paguei IRS); não queriam mais nada que era ter o meu rico dinheirinho a render nos cofres do estado! Nem um segundo a mais do que o estritamente necessário.

Por isso, habituei-me a pagar tudo no último dia.
O condomínio? No último dia.
O seguro da casa? No último dia.
O seguro do carro? No último dia.

Depois fico muito zangada quando eles me enviam segundos avisos de pagamento.
Mas afinal por quem me tomam?
Por alguma caloteira, não?!

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Não Digo Que Não

Imagem tirada da Net
"Maternidad" - Pablo Picasso


A primeira coisa a registar é a admiração que sinto pelas mulheres que, abnegadamente e às vezes sabe-se lá a que custos, decidem ter filhos.

Posto isto e a propósito deste texto, aproveito para dizer a quem possa interessar que, numa conversa onde, vamos supor, estão duas mães de jovens rebentos, não é minimamente interessante saber se as crianças já fizeram cócó naquele dia ou não, se a consistência, a cor ou o cheiro eram normais ou nem por isso!
É a verdadeira conversa de merda.
Não interessa a mais ninguém a não ser às mães em questão, que no auge da sua função primordial de propagadoras da espécie se esquecem de tudo o resto que faz parte da vida do comum dos mortais.

Tenho pena quando constato que mulheres que antes de serem mães falavam sobre cinema, música, literatura e sei lá mais o quê, mal se encontrem com os rebentos nos braços pareçam esquecer-se de tudo e passem a falar apenas de fraldas, marcas de leites e percentis!
Tinha uma colega de trabalho que contava o parto da filha como se da própria Odisseia se tratasse, com direito a pormenores verdadeiramente gráficos e portanto, horrorosos.
Ninguém precisa de saber quantos pontos levaram nas ditas cujas, nem por dentro nem por fora!
Ninguém precisa de saber que aumentaram três números de sutiã e que "as meninas" desceram dez centímetros em direcção aos joelhos!
And who cares sobre a vida sexual (ou a inexistência dela) depois do parto?

Eu sei que há mulheres que nasceram para a maternidade (que são muito boas naquilo que fazem e que teriam vidas indiscutivelmente mais pobres se não tivessem filhos) e acho isso fantástico, embora como já disse aqui não seja um assunto que me toca especialmente e não me inclua de todo no espectro de mulheres cujo sonho é serem mães. Mas custa-me ver que algumas pessoas encarem a maternidade como uma obrigação, como uma sina, como apenas mais uma etapa da ordem "natural" da vida.

Se há coisa que deve ser pensada e desejada é um filho. Porque um filho não se tem só enquanto é moda, só enquanto anda em carrinhos todos xpto... Um filho é para a vida. E a minha pergunta é:
Será justo para uma mulher anular-se, dedicar-se por completo aos filhos, esquecendo-se de si, das suas necessidades, dos seus prazeres, da sua pessoa?

Muitas das mães responder-me-ão que sim, que é justo, que vale a pena. Porque ter um filho é a maior bênção da vida de uma mulher, é o objectivo último do corpo feminino, é o amor mais lindo e puro que uma mulher pode sentir, and so on and so forth...

Não digo que não.
Digo apenas que deve haver mais coisas para além disso.
E que de facto, não somos todas iguais.
Seja por que motivos for.

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sábado

No Sítio do Costume...

Imagem tirada da Net



Nos meus últimos anos de estudante universitária trabalhei em part-time num hipermercado. Primeiro na caixa, depois nos Serviços Financeiros.
Com esta minha mania de ser bem educada, cumprimentava sempre os clientes, conhecia muitos deles pelo nome e até ficava a saber bocadinhos das suas vidas (porque há pessoas que só precisam de alguém que os oiça durante cinco minutos).
Sempre fui simpática, não por obrigação, mas por feitio e recebi muitos elogios pela minha maneira de atender as pessoas.

Assim sendo, constato que alguma coisa está muito mal quando num supermercado, onde fui comprar cenouras e chuchu para a sopa, digo à senhora da caixa:

-Obrigada.

e ela me responde:

- De nada.

Pergunta para cinquenta mil euros:

Qual a resposta correcta?

a) Obrigado nós.
b) Obrigada e bom fim-de-semana.
c) Obrigada e volte sempre.
d) Nenhuma das anteriores...

Ora tu queres ver que andei estes anos todos enganada e a fazer figura de ursa?!
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sexta-feira

Push The Button!

Foto tirada da Net


Gosto de morar em apartamento. Gosto da sensação de segurança que um prédio me proporciona. Gosto de fechar os trezentos trincos da porta e sentir que ali não entra quem eu não quero. E sinto-me segura.

No caso do meu apartamento em particular, há uma coisa que me tira do sério...
A minha campainha é a primeira do painel e por isso não há cão nem gato que queira entrar no prédio que não toque à minha campainha. (Ainda por cima é daquelas que tem código e ninguém tem paciência de andar à procura do código correcto.)

- Bom dia. É da Portgás, para ver os contadores. Pode abrir-me a porta?
- Bom dia, é da PT. Estamos a fazer uma pequena sondagem aos clientes. Pode abrir-me a porta?
- É do Círculo de leitores...
- É da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias...
(sotaque brasileiro): - Oi, é da casa do Maiquéu?...

Haja Paciência - assim mesmo, com maiúscula, porque é precisa muita!

Já tenho dito ao Nuno:

- Ainda bem que não há nenhuma casa de meninas no prédio, senão é que era um fartote!

"Deslarguem-me" o botão!!

Apre!

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quarta-feira

Carcaças Velhas



Isto sim, é uma carcaça velha.
Linda. Mas velha.

Faz-me alguma confusão ver como se catalogam as pessoas de acordo com os anos que os seus corpos têm.
Agora que o meu aniversário se aproxima a passos largos, e para responder a uma observação de uma sensibilidade avassaladora que vaticinava: "Estás a ficar velha", gostava de discorrer um tudo nada sobre a questão dos anos e do seu reflexo no corpo e no espírito. Porque são coisas distintas.

Tenho 34 anos.
Quando me perguntam a idade hesito quase sempre. Não por pejo de dizer o número que já impõe algum respeito, que isso a mim não me incomoda nada, mas porque tenho sempre de fazer um esforço para me recordar dele. É que não sinto que este número esteja intrinsecamente ligado àquilo que sou e ao que me vai na alma. É claro que olho para certos aspectos da vida com outros olhos, com outra responsabilidade, mas acho que isso se deve mais ao meu crescimento enquanto pessoa que ao passar dos anos. Não sei se há preocupações que assolem especialmente as pessoas aos 20, aos 30 ou aos 40 anos. Quero dizer, quando tinha 20 anos já andava preocupada com as condições que terei na velhice. E aos dez questionava-me por que razão gostava tanto de ler e conhecer coisas que os mais velhos diziam que não eram para a minha idade.

Assim sendo, para mim, a idade cronológica não é mais do que um registo prático que vai marcando certas etapas da nossa vida. Aos 18 anos passamos a poder votar, a tirar a carta e já podemos ir presos! Daí para a frente, verifica-se apenas o avanço inexorável dos algarismos.

No que diz respeito ao corpo, as coisas já são um pouco mais complexas. Mas igualmente pouco dramáticas.
É certo que já não consigo fazer directas como antigamente e se beber muito café fico cheia de tremeliques e com dores de estômago. É certo que se abusar dos doces o corpo reage de uma maneira diferente de há 10 ou 15 anos atrás, mas as manifestações da idade produzem-se a um nível meramente físico. Se encararmos o nosso corpo como uma máquina, é natural que com o passar do tempo ela comece a denotar alguns sinais de cansaço, que algumas peças comecem a requerer outro tipo de atenção e que algumas engrenagens não funcionem tão bem como desejaríamos.

Mas nem neste aspecto me revejo.
Sinto-me melhor no meu corpo agora, aos quase 35 anos, do que há 10 anos atrás.
Estou mais cuidada, mais bonita, mais apaixonada por mim.
Tenho mais cuidados, mais preocupações, mas também vivo mais agora do que quando tinha 25 anos. Aproveito mais e melhor o que a vida me vai oferecendo.
Acredito que mereço todas as coisas boas que me acontecem e que muitas mais estão à minha espera ao longo caminho que ainda tenho para percorrer.

A única coisa que me assusta é o estado em que viverei a minha velhice. Se vou estar sozinha. Se vou continuar a ser feliz.
Não penso muito na minha morte. Penso mais na morte dos que me são queridos. Isso sim assusta-me a valer.
Mas como sempre, se deixar a minha cabeça vaguear livremente, ela tende a afastar-se destes assuntos mais lúgubres e concentra-se inevitavelmente nos aspectos bons da vida, nas pessoas que agora fazem parte dela e em como é bom olhar para trás e constatar que evoluímos, que somos hoje melhores do que antes.
Os anos?
São apenas um número, um detalhe técnico; não são assim tão relevantes!

Ah! E velhos são os trapos!!

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Mais Um Mimo!


A Naná, que é amorosa, ofereceu-me este mimo!
Obrigada!

É bom ver que as nossas ideias (às vezes muito parvas!) são lidas e apreciadas pelos nossos amigos cibernautas!!

Mas como sempre, lá vou subverter as regras do prémio! Com toda a franqueza deste mundo e com um enorme pedido de desculpas à Naná, não me apetece passar o mimo a ninguém. Prefiro deixá-lo aqui e dedicá-lo a todos os que sei que me lêem! É tão meu quanto vosso!

Deixo, contudo as regras, para o caso de alguém querer continuar com a cadeia!

As regras são:
1. Exibir a imagem do selo "olha que blog maneiro"
2. Postar o link do Blog que indicou
3. Indicar seis blogs da sua preferência
4. Avisar os indicados
5. Publicar as regras
6. Conferir se os blogs indicados repassam o selo e as regras.

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Da Presunção Dos Outros

Cuba - Foto tirada da Net


Porque é sempre mais fácil falar dos defeitos alheios:

Há pessoas que se acham mais que os outros.
Há pessoas muito arrogantes, muito presunçosas.
São afirmações que quanto a mim não merecem grande discussão.
Felizmente não conheço muita gente assim, mas de vez em quando lá me aparece uma ave rara a regurgitar pérolas de arrogância.

Estive uma semana de férias. Fui para a praia.
Como sou uma pessoa consciente e não tenho pressa em ter uma pele envelhecida, protejo-me do sol com quantos cremes posso e nunca fico com aquele bronze que aproxima certas pessoas dos nativos do Burkina Faso.

Mesmo assim, este ano fiquei cheia de borbulhitas por causa do calor (ou de algum bichito mafarrico que decidiu refastelar-se com o meu sangue - morreu envenenado de certeza - bem feita!).

Na segunda-feira, estava no ginásio, a vestir-me, e uma senhora que estava ao meu lado queixava-se dramaticamente de umas borbulhas que lhe tinham aparecido nas pernas já para o fim das férias. (A dita senhora podia de facto ser confundida com um habitante da África profunda.)
E eu que sou uma parva, que falo com toda a gente e tenho a mania de ser simpática, disse-lhe.

- Olhe, eu também fiquei assim mas as borbulhas não demoram muito tempo a secar.

Ao que a esturricada me responde:

- Ah, mas as minhas borbulhas não são iguais às suas, que as minhas vieram de Cuba!

Com uma presença de espírito que às vezes me foge, respondi muito depressa:

- Pois se calhar não, as minhas vêm do Pacífico!

E enquanto ela me olhava, à espera que lhe dissesse para onde tinha ido, virei costas, decidindo acabar com a simpatia.

Coça-te pr'ai, ó presunçosa. Espero que as tuas borbulhas inchem até seres apenas uma grande pústula com olhos!

(Já sei, já sei, a inveja é um sentimento muito feio!!)

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Adenda: É claro que numa semana não tive tempo para ir até ao Pacífico, mas é só para a senhora não se armar ao pingarelho e ficar sem resposta!!

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segunda-feira

E Elas Vieram e Foram...


Porque é que as férias passam sempre tão depressa?
A quem é que temos de meter uma cunha para fazer os dias durarem mais tempo?
Será que as próximas cinco semanas também vão passar com a mesma velocidade?

Neste momento são estas as três questões que mais me inquietam!!

Y ahora... a trabajar!

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Às Vezes Mais Valia Não Abrir o Bico.


É que se fosse assim...



Uma das coisas que prezo nas pessoas é a sensibilidade.

Não tanto a sensibilidade no sentido de delicadeza, de se ser sensível (se bem que também se poderia adequar a esta situação em concreto), mas a sensibilidade em termos de tacto, de noção do que se deve dizer ou não. O velho e aclamado chá.
Confesso que é uma das características que tento cultivar e melhorar em mim, porque como falo pelos cotovelos, às vezes lá sai uma coisita menos simpática.

Eu tenho duas tatuagens.
Uma mais discreta que a outra, mas nenhuma delas extraordinariamente gritante.
Uma no pulso esquerdo e outra no tornozelo direito.


Estava no ginásio e diz-me uma colega que conheço vai para quinze anos:
- Ó pá, estás toda riscada!
- Riscada?
- Sim, tens uma tattoo na perna outra no braço...
- hmmm... (sorriso amarelo).

Desculpem lá!
"Toda riscada"?
WTF?!!

Este tipo de comentários são dispensáveis e revelam, quanto a mim, uma tremenda falta de chá. (Cá está ele!)
Quem faz tatuagens fá-las porque gosta, não porque quer que os outros gostem delas. Por isso, desculpem lá se as coisas que coloco no meu corpo ofendem os vossos olhos.

Para a próxima peço autorização, sim?

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quinta-feira

A Delícia das Palavras


Cafe-Librería El Péndulo, Sucursal Polanco, na Cidade do México!

Que charme de livraria!




O meu apego às palavras já não é de hoje.

Quando tinha onze ou doze anos, a minha mãe que é uma santa, mas que de pedagogia nunca percebeu muito, zangava-se comigo porque a única coisa que eu fazia nos fins-de-semana, nas férias e em todos os bocadinhos que arranjava era ler.

Li de tudo um pouco, desde as Júlias, Sabrinas e Biancas da minha vizinha da frente, até aos livrinhos da Condessa de Segúr, passando pelos Cinco, pelos Sete, pelos Nove e por todos os grupos de números ímpares que tinham aventuras publicadas!

Passado pouco tempo descobri a Agatha Christie, o Robin Cook, o Konsalik (todos grandes mestres de literatura a metro, mas nontheless boa de se ler!). Li coisas boas, assim assim e más! Mas tudo me fez bem, tudo me ensinou qualquer coisa.

Não conseguia arranjar uma actividade que me desse tanto prazer, que me enchesse tanto as medidas, que me fizesse viajar e me abrisse os horizontes como a leitura. Era muito fácil deixar-me envolver nas histórias, imaginar que se fosse eu a heroína fazia assim e assado e se fosse o autor não teria escolhido aquela maneira ou a outra de resolver os mistérios e problemas. Quando se lê, é muito fácil criticar. mas quando se tenta escrever para os outros lerem, o caso muda de figura.

Durante a adolescência, apesar de já ter uma ideia mais ou menos clara do que queria fazer na vida, ainda não tinha muita noção sobre como funcionava o mundo da tradução. Acho que só lá por volta dos 16 anos é que me comecei a aperceber que se os livros apareciam nas minhas mãos em português e tinham sido escritos por uma russa ou um alemão, devia haver mão de terceiros ali pelo meio. E comecei a prestar uma atenção maior às palavras. Comecei a imaginar como seria ler a mesma obra no original. O que podia ganhar? O que podia perder? (Se lesse em russo, perderia tudo! Tive três semestres da dita língua e já nem me lembro do alfabeto inteiro!!)

Mas comecei desde muito nova a questionar não o trabalho, mas as opções das pessoas que traduziam os livros. Porque embora sejamos apenas tradutores e não autores, uma parte do que escrevemos reflecte as nossas próprias escolhas lexicais. Há palavras que não gosto de dizer e outras que me saem com mais facilidade. E isto sem desvirtuar o texto original, obviamente.

No primeiro livro que traduzi, depois do estágio, tive uma teima com a revisora em relação à tradução da palavra "damm".
Eu queria que fosse "chiça", que é uma palavra que me é muito querida(!!) e ela achava que devia ser "merda".
Lá andámos as duas às turras, a tentar convencer-nos uma à outra até que acabei por ganhar.

Depois de publicado o livro, disseram-me:

- Eu assim que o abri e vi na primeira linha "Chiça!", pensei logo isto é mesmo da Ana!

Porque por muito que não queiramos, damos sempre um bocadinho de nós aos trabalhos que nos passam pelas mãos.

É por isso que este trabalho me consome tanto...
Mas ainda hoje, ler é das melhores coisas que posso fazer com o meu tempo.

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Mais Uma...

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Ai, ai...
E quando nada fazia adivinhar... eis que surge a bela da contractura na parte de trás do joelho direito!
Não sei o nome do músculo, mas começou a doer-me na terça-feira, depois do Power Plate e ontem na aula de Jump continuou. Já só fiz a última parte da aula a meio gás e achei que tinha esforçado o tendão ou qualquer coisa do género. Diz que não. Que é muscular.
Olha que espectacular.
Hoje estou verdadeiramente à rásca e depois do pequeno-almoço já "enfardei" com um Voltaren, que é por causa do cheiro das tintas!
Agora, vou ficar de "repouso", que é como quem diz, sentada em frente ao pc a trabalhar, que o que me doi é o joelho e não os braços!!

Mas como diz o outro: Antes isto que outra coisa!! (que é um dizer absolutamente fabuloso, uma vez que não especifíca a outra coisa, que até podia ser completamente fenomenal. Mas não... antes isto, que é cousa pouca!)

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quarta-feira

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Há coisas que não deviam acontecer. Ponto.
Nem eu, que sou uma optimista empedernida consigo encontrar um fundamento ou propósito para algumas coisas que se vêem por aí.

Já aconteceu há alguns dias, mas só agora é que consigo escrever com clareza.

Ia numa das ruas de Braga quando vi uma velhinha com uma bengala encostada a uma parede. Não era uma velhinha maltrapilha nem suja. Tinha um carrapito e um rosto redondinho, parecia mesmo uma avózinha.
Quando passei por ela, estendeu-me a mão e pediu-me uma esmola.
Fico sempre chocada com esta palavra, com este gesto, com este desespero.

Baixei os olhos e continuei a andar. Não tinha dado três passos e já estava com os olhos cheios de água. Que merda de sociedade!
Continuei a andar, odiando a circunstância que tinha levado aquela velhinha a pedir esmola no meio da rua e odiando a minha crueldade por passar por ela sem a ajudar, com dinheiro na carteira e no banco.

Vinte metros depois não aguentei mais e voltei para trás, com um nó do tamanho do mundo a comprimir-me a garganta.
Abri a carteira e dei-lhe o dinheiro que tinha.
Quando me viu voltar para trás de carteira na mão, a velhinha ficou comovida e disse-me que Nossa Senhora me protegesse.

Só não chorei por vergonha.

Fui-me embora revoltada com esta merda de mundo que obriga uma senhora que devia estar em casa, resguardada do calor, a mendigar na rua.
Não sei se era para medicamentos, para comer ou se era mais uma velhinha cujo filho agarrado lhe suga tudo o que tem (e em alguns casos até as obrigam a pedir para eles poderem comprar droga), mas sei que o dinheiro que lhe dei me ia pesar na carteira e não me ia trazer conforto nenhum.

Assim que entrei em casa deixei sair tudo.
Porque me custa ver os idosos maltratados.
Porque há coisas que eu não entendo.

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