quarta-feira

Tempus fugit

"Time flys when you're pinning." JRH Umbra-tile-tempusfugit. Paul Bommer faux Delft Tile. Tempus Fugit. copyright © Paul Bommer:

Sei que a generalidade das pessoas passa a vida à espera que chegue a sexta-feira, como se a sexta-feira fosse aquele dia mágico em que todos os problemas da vida e do mundo em geral desaparecem ou se resolvem milagrosamente. Compreendo, quase ninguém gosta de trabalhar, trabalhamos porque é o que as pessoas fazem e é preciso pagar o empréstimo da casa e do carro e enfim, tem de ser, é assim a vida. 
Eu quando tinha uma vida normal, quando só estudava, também gostava da sexta-feira, também sentia a «magia de sexta-feira à noite».
Mas depois passou-me.
Quem trabalha com prazos como eu, não tem noção de dias de semana, de fim de semana, de feriados e as pontes ou tolerâncias de ponto são para aqueles sortudos que recebem certinho ao fim do mês. Eu recebo o que produzo, por isso se produzir muito recebo mais, se produzir pouco, recebo menos.
Se não produzir, não recebo.
Um trabalhador independente como eu dá por si à quarta-feira quase em choque por JÁ ser quarta-feira. QUARTA-FEIRA?! Como assim já é quarta-feira, se ainda ontem era sábado!
Para onde é que foram os meus dias? 
Sexta é daqui a dois dias?!! Como assim? SÓ faltam dois dias para a semana chegar ao fim?! COMO ASSIM?!! Não pode ser.
A pouca noção que tenho dos dias de semana existe porque também me regulo pelos prazos e ritmos das pessoas com quem trabalho, mas para mim, tanto posso folgar a uma quarta-feira e trabalhar ao domingo - é igual. Gosto de todos os dias da semana. Sobretudo se puder folgar!

Gosto das segundas-feiras precisamente porque são o início da semana e me dão a ideia de que tenho muito tempo, muitos dias, se bem que até isso é uma ilusão. É um dia como os outros, igualzinho à sexta-feira, só que mal amado, injustiçado. Coitadinhas das segundas.

Por isso, não, já não me lembro da «magia da sexta-feira à noite», já não sei o que é ter fins de semana certinhos, não sei o que é ter um horário, uma rotina de trabalho, nem sei o que é receber ao fim do mês.

Só sei que hoje já é quarta-feira e por mim podia ser segunda - da semana passada!

O tempo foge-me, é o que vos digo. Pisco os olhos e ele foge!

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terça-feira

Mais um dia triste




É sempre triste ouvir notícias de guerras, revoltas políticas, catástrofes naturais, atos terroristas em terras longínquas, milícias armadas algures nas florestas tropicais. É preocupante, fico sempre com um aperto no peito, penso sempre na dor das pessoas, no que sentem os familiares, os amigos. Mas normalmente são (eram) acontecimentos distantes.
Esta guerra instalada contra cidades europeias onde a vida decorre pacificamente, com toda a normalidade que estou habituada a ver na cidade onde vivo é absolutamente aterrorizante. Porque é imprevisível. Não vivemos num cenário de guerra ou instabilidade social em que os atos de terror são expectáveis - por muito lamentáveis que sejam. Vivemos em paz, as nossas sociedades são organizadas, bem ou mal, com maior ou menor desigualdade não é isso que que está em causa.
Sentimo-nos seguros para ir a um estádio de futebol, para correr pela rua, para estar na praia de olhos fechados, para ir ao jardim zoológico ou a um concerto.
Esta guerra de terror quer tirar-nos a paz, a placidez com que encaramos o dia a dia e por muitos discursos a instigar a união e a resistência, o sentido de comunidade e a solidariedade, a verdade é que sinto medo.

Porque já ninguém sabe quando ou onde é o próximo, como vai ser e quem será o alvo.
Já não é só em terras distantes que a barbárie acontece. Está aqui, no nosso quintal, debaixo dos nossos narizes.
E o medo vai ganhando terreno.

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quinta-feira

Bored


YES! -sc                                                                                                                                                                                 More:


A minha fome quase nunca é física.
Quero dizer, se estiver demasiado tempo sem comer, se fizer um esforço físico puxado ou se fizer uma refeição mais leve, claro que fico com fome, mas é raro chegar àquele ponto em que já tenho um ratito na barriga. Procuro comer bem, de forma saudável e equilibrada mas sem fundamentalismos e permitindo-me as coisas que mais prazer me dão. 
O que me assalta muito frequentemente é a fome emocional. Sei que a minha relação com a comida é maioritariamente emocional. E só tenho duas formas de agir.
Quando estou nervosa, triste, stressada ou a braços com um trabalho chato, exigente ou apenas mau, das duas uma: perco por completo o apetite e até me esqueço de comer ou como desenfreadamente tudo o que me aparece à frente, faço as combinações mais estranhas (nozes com triângulos de queijo?!) e ainda assim continuo com fome.
Porque na verdade não é fome. É muita coisa, mas não é fome.
Neste momento estou a acabar um trabalho em que as frases pura e simplesmente não fluem. Quero acabá-lo para me ver livre disto e quanto mais o quero acabar, mais lenta me sinto. Vou fazendo, mas queria fechar os olhos, contar até dez e quando os abrisse Pufft! - o trabalho estava feito! 
Já experimentei e não funcionou.
Tenho de continuar a traduzir da forma tradicional.

E isto está a dar-me uma fome dos diabos.

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Metaforicamente falando

You gotta stop watering dead plants!    "An Engeldark valentine" says wonderful artist Mary Engelbreit:


A respeito da questão de não guardar ressentimentos e de esquecer efetivamente as sacanices dos outros, há várias conclusões a retirar e outras estratégias que para mim acompanham ou complementam o tratamento indiferente.

Esquecer ou decidir arrumar fora do coração as mesquinhices dos outros não é um sinal de que se é brando de caráter, que se é parolo, que deixamos que nos comam as papas na cabeça. Escolher não pagar as merdas na mesma moeda é tão somente um atestado da nossa bondade emocional, da nossa maturidade e da nossa elevação moral. 
É aquela cena de andar a chafurdar na lama com os porcos - perdemos sempre, porque eles já estão habituados.
(Pode parecer arrogância, e se calhar até é, mas gosto de pensar que conhecer o nosso valor também é importante.)
Quando decidimos que não vale a pena ser mesquinho, que não é da nossa natureza, estamos a certificar-nos de que podemos dormir melhor de noite. Libertando esse tipo de sentimentos menores, garantimos que aquilo que deixamos entrar e ganhar lugar dentro de nós são só as coisas boas. As menos boas, as más, existem e fazem-se notar, claro que sim, mas não precisamos de as deixar tomar assento.
Ser bonzinho não é ser palerma, é ser bom. É ser melhor.

Depois disto chega a parte em que por sermos «obrigados» a conviver com as pessoas é preciso encontrar estratégias.
Já disse aqui que a minha é recorrer à indiferença, com educação mas sem calor. Há de haver outras certamente. Mas a minha, que quero ser boa e depois melhor, passa por deixar de regar a planta. 

A certa altura é preciso deixar de regar uma planta que já está morta. 

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quarta-feira

Cordial e indiferente


Less... Relevant... I still have to pray for your continued success though... T:


Não me considero uma pessoa mesquinha, não sou de grandes melindres, não me ofendo por dá cá aquela palha e por instinto de autopreservação ou por estupidez natural tenho tendência para me esquecer das coisas chatas que me acontecem.
Mas...
Tenho muito pouca paciência para a cobardia e a falta de integridade em geral.
Para quem diz que faz e não faz;
Para quem só consegue olhar para os outros e não vê o espelho que está à sua frente;
Para quem só «vê» os outros quando lhe convém;
Para quem é mesquinho e embirrante só porque sim;
e
Para quem é azedo e não faz um esforço por mudar.


Considero-me uma pessoa simpática, afável, boa onda. Dou segundas, terceiras e às vezes quartas oportunidades porque acredito que toda a gente tem um fundo bom e porque no fundo (passe o pleonasmo!) é o que faço comigo - dou-me infindáveis oportunidades para ser melhor.
Mas, uma vez borrada a pintura, não há volta a dar-lhe. 
Podem aparecer-me pintados de ouro que não sou capaz de voltar ao que era antes; parece que crio uma espécie estranha de intolerância, uma alergia e passo a encarar as pessoas apenas por aquilo que mostram, em vez de estar disponível para ver o que pode existir por baixo. 
Sei que toda a gente tem muitas camadas, boas e menos boas, mas se alguém escolhe mostrar umas e não outras, o esforço de procurar pelas boas já não me compete a mim. 

Como me considero uma pessoa calorosa até para as pessoas que não conheço, para mim o tratamento cordial e indiferente é na verdade a forma mais distante que encontro para funcionar em sociedade. 
Esta é de resto uma palavra pavorosa: cordial. 
Nem é carne nem é peixe. Não aquece nem arrefece. Está ali. Existe. Não é nada nem deixa de ser.

É cordial, quase transparente não fosse considerar-me também uma pessoa educada.

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Demandas impossíveis




Fazendo um exercício puramente individualista e partindo do princípio de que o que desejo de bom para mim é o mesmo que desejo às pessoas que amo, se me perguntarem qual é o objetivo primordial da minha vida respondo que é ser feliz.
Acho que terei isto em comum com a esmagadora maioria das pessoas, porque não acredito que alguém seja infeliz porque quer.
A minha noção de felicidade engloba todos os tipos de saúde (a saúde física, a afetiva e até a social e a financeira). As pessoas mais velhas costumam dizer que havendo saúde o resto arranja-se e é verdade.
A minha noção de felicidade também implica ter um trabalho que me realize, que me ensine muitas coisas e que me permita ter tempo (e dinheiro) para viver. Ou seja, o trabalho não pode servir só para ganharmos dinheiro para pagar contas e impostos, para comprar batatas e cenouras e pouco mais. 

Excluindo todos os fatores externos, acho que a felicidade vem de dentro; dos nossos sentimentos e expectativas em relação às coisas e às pessoas que nos rodeiam, dos pensamentos que escolhemos albergar e da forma como olhamos para nós e para o mundo. E é esta parte que exige mais trabalho.
Sempre disse que nada é tão verdadeiramente nosso como os nossos pensamentos. Ninguém manda nos pensamentos de uma pessoa saudável. São nossos, podem ser o que quisermos, podem apresentar-se como quisermos porque não precisamos de os transmitir a ninguém. São nossos. Mas podem ser influenciados ou condicionados.

Ultimamente parece que a Humanidade se embrenhou nesta demanda da felicidade - eu incluída. Toda a gente tem dicas e conselhos para os outros serem felizes, toda a gente escreve frases inspiradoras a «ensinar» a felicidade. Parece que só nos sentimos completos, pessoas válidas se formos sempre muito felizes e estivermos sempre de bem com a vida.
Acho que durante muito tempo caí nesta ratoeira. Na de me comparar com outras pessoas (cujas vidas completas - e pensamentos - desconheço inteiramente), na de querer que o meu mundo seja sempre cor de rosa e habitado por coelhos de angorá e unicórnios; na de desejar que tudo fosse perfeito e imaculado. Eu não sou, ninguém é. 
Por isso, a realização de que nada é perfeito e imaculado foi uma coisa que me custou a engolir. 
Conseguir processar e aceitar que ninguém é feliz todo o dia, todos os dias, é das conquistas mais libertadoras que posso fazer. 
Deixar escorregar dos ombros a pressão de que preciso de andar a sorrir e a saltitar feliz e contente todos os segundos do dia é maravilhoso. Porque não preciso. Não consigo. Não quero.
De vez em quando os momentos tristes, os pensamentos tristes metem-se no nosso caminho, caem-nos em cima de repente, assaltam-nos o pensamento. É mesmo assim. É aceitar, processar e passar à frente. Amanhã é outro dia.

Acho que devo perseguir os momentos felizes, sim, tentar reunir tantos quantos consiga, mas não posso atribuir-lhes a responsabilidade da felicidade absoluta.

Porque a felicidade absoluta é tão real como os unicórnios.

Some days are just like that, especially the rainy ones. Relating to Sadness from Disney Pixars #InsideOut Disney UK on Twitter:
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segunda-feira

Tão simples e tão difícil

Instead of re-inventing, let us just resolve to Be Better. It's me,  on @Mamalode  #resolutions:

Antes de qualquer outro trabalho interior, há uma coisa que tenho de fazer, em que tenho vindo a pensar mas que precisa de muitas horas ainda de discussão silenciosa: As pessoas não são todas iguais a mim.

Tão simples quanto isto.

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